quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

IMPORTAÇÃO DE OBRA DE ARTE - PARTE 2

Olá Pessoal!

Para iniciar esta PARTE 2, trago novamente a pergunta que finalizou a PARTE 1:

Qual a finalidade do Imposto de Importação incidente sobre obras de arte?

Se a extrafiscalidade ainda não se "encaixou" bem como resposta, vamos tentar procurar a saída por outros caminhos...

A começar pela concessão de benefício, vejam.


4) UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL...

Há uma luz no fim deste túnel. Se por um lado a importação de obra de arte com cobertura cambial (pagamento ao exportador) é passível de tributação, por outro, as normas preveem isenção dos tributos na hipótese de DOAÇÃO a Instituição Pública ou Entidades Culturais.

Vejam no caso do II:

LEI Nº 8.961- DOU 24/12/1994

                             Dispõe sobre a Isenção do Imposto de Importação na Hipótese que Menciona.


                O Presidente da República. Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

                Art. 1º - É concedida isenção do imposto de importação incidente sobre objetos de arte, constantes das posições 9701, 9702, 9703 e 9706 do capítulo 97 da Nomenclatura Brasileira de Mercadorias (NBM/SH), e recebidos, em doação, por museus instituídos e mantidos pelo poder público e outras entidades culturais, reconhecidas como de utilidade pública.

                Art. 2º - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.


Porém, vale lembrar que existem regras para que a importação seja caracterizada como doação, não é apenas o fato de ser SEM COBERTURA CAMBIAL (sem pagamento) que VALIDA a importação como DOAÇÃO.


Vejam abaixo informação, retirada do site da Receita Federal, sobre doação (de qualquer mercadoria):


IMPORTAÇÃO - DOAÇÃO
O IMPORTADOR
Deverá apresentar à autoridade aduaneira documento atestando a compatibilidade da natureza, da qualidade e da quantidade dos bens às finalidades essenciais do importador.
TRIBUTAÇÃO
O fato de a mercadoria ser doada, e por isso não existir pagamento (sem cobertura cambial), não significa que não haverá tributação.
Será tributado normalmente, a menos que tenha isenção, redução, ou não incidência, contidos em lei.
Fonte: http://idg.receita.fazenda.gov.br/orientacao/aduaneira/importacao-e-exportacao/importacao-de-bens-objeto-de-doacao-1


No caso de importação de obras de arte (NCM 9701.10.00), que tenham sido DOADAS a museus ou entidades culturais, temos o benefício da ISENÇÃO com previsão legal conforme abaixo:


II
ISENTO - LEI Nº 8.961/1994 – Art. 1º

IPI
NT – Não Tributado

PIS
ISENTO - LEI Nº 10.865/2004 – Art. 9º

COFINS
ISENTO - LEI Nº 10.865/2004 – Art. 9º

ICMS
ISENTO - CONVÊNIO 59/1991 – Cláusula 1/Parág. 2º



Mas...por que restringir o benefício da isenção apenas para as operações de doação?

E por que estas isenções beneficiam apenas parte dos importadores?

Podemos entender através do texto de Marlon Alberto Weichert, sobre a necessidade de existir um sólido fundamento que justifique o tratamento desigual dado pela concessão de isenção a determinados fatos ou sujeitos:


"E, se o benefício não encontrar sólido fundamento, que justifique adequadamente essa desigualação, o Estado estará discriminando todos os demais cidadãos. A regra, portanto, é que a concessão de isenção atenta contra a igualdade e, com isso, afronta a Constituição. No entanto, se ela for fruto da ponderação de outros valores constitucionais, será admitida, sobrepondo-se à isonomia tributária fundamentada na divisão dos encargos do Estado conforme a capacidade econômica."

Autor: Marlon Alberto Weichert


O mesmo autor também destaca que os valores levados em consideração para concessão de isenção podem variar em função do tempo e cultura de determinado país.


"É oportuno ressaltar que os valores fundamentantes do sacrifício da igualdade tributária variam historicamente, assim como em função da cultura dos povos. Dessa forma, o valor que no Brasil de hoje autoriza a isenção não será necessariamente o mesmo do Brasil de ontem ou de amanhã, da mesma maneira que não precisa coincidir com o vigente em outros países."

Autor: Marlon Alberto Weichert


Vejam um exemplo:





Ainda assim questiono, será que estamos tão atrasados no tempo? Que a importação do produto "cultura" no Brasil só é permitida a determinados sujeitos (Museus Públicos e Entidades Culturais) e a determinados fatos (doação)?



5) POSSÍVEL VISÃO DA RECEITA FEDERAL...

Podemos, a partir das informações descritas até aqui, tentar entender o raciocínio do governo por trás da tributação e da isenção na importação de obras de arte.



Meu entendimento...


  ARTE PELA ARTE – UTILIDADE PÚBLICA - ISENÇÃO

Quando a importação da obra de arte visar apenas a “ARTE PELA ARTE”, não haveria que se falar em pagamento, nem que se falar de fins comerciais, por isso seria possível a doação da obra. Assim se justificaria a isenção na importação, uma vez que a obra seria exposta em instituições com fins públicos.

A arte neste caso seria tradada apenas como uma contribuição cultural.


 ARTE PELO LUCRO – FINS COMERCIAIS - PASSÍVEL DE   TRIBUTAÇÃO

Já quando a arte visar o comércio, ou seja, iria existir a comercialização da arte e esta transação iria gerar lucro, seria passível de tributação, independentemente da finalidade.

Neste caso a arte seria tratada como mercadoria comercial.




Mas tributar a importação de obras de arte, independentemente da finalidade, não seria uma visão míope acerca da extrafiscalidade?

Me parece que sim.

Hoje existe mundialmente um mercado de obras de arte. E a produção de um artista é, na grande maioria, o seu meio de percepção de renda e subsistência.

Mas esse fato, de gerar lucro, não descaracteriza a obra de arte, nem a qualidade do seu criador, ela continua tendo seu valor artístico e cultural. É a arte pela arte.

Assim como o mercado consumidor, seja pessoa física ou jurídica, seja para fins comerciais ou não, também a vê e a consome como arte, pelo simples prazer de se deleitar por sopros de genialidade que existem nestas obras.

Podem existir intermediários nesta cadeia que tratem a arte como mercadoria, mas na sua concepção e destinação final, sempre será tratada como arte. Assim sua disseminação e seus benefícios terão efeitos culturais e educativos à todos aqueles que direta ou indiretamente tiveram contato com esta.

Esta porção de cultura que cada obra de arte gera não serve ao interesse público?

Ao meu ver, a cultura que pode ser gerada através do incentivo de eventos ligados a arte, como por exemplo a desoneração da importação de obras de arte, pode ser muito maior e mais eficiente do que o recolhimento do imposto de importação gerado através destas operações.

Pergunto mais uma vez:


...Há que se falar em concorrência com o mercado nacional de uma obra de arte estrangeira única?



    ...Há que se falar em regulamentação da economia nacional uma vez que não existe produção nacional similar?


          ...Há que se falar incentivo à cultura e à educação sem desonerar a operação de importação de obras de arte?


Portanto, voltamos à discussão:

Qual a finalidade do Imposto de Importação incidente sobre obras de arte?

O Imposto de Importação incidente sobre obras de arte tem mesmo finalidade extrafiscal?



6) O QUÃO ESSENCIAL É A CULTURA NO BRASIL?

Parece que estamos com mais perguntas que respostas...(rs)

Mas essa pergunta irá nos levar por um caminho interessante...

Vejamos o que é “essencialidade”:

 “A essencialidade está relacionada com os produtos necessários às condições mínimas de vida, e quando observada prestigia o princípio da dignidade da pessoa humana e da capacidade contributiva, contexto onde o mínimo existencial está inserido. Dentre os modos possíveis de materialização do princípio da essencialidade, no Direito Tributário encontra-se a isenção e a seletividade de alíquotas.
Autora: Rosane Beatriz J. Danilevicz - Dissertação.

E quem oficialmente decide pelas alíquotas aplicadas na importação?

A responsável pela fixação das alíquotas de importação é a CAMEX, vejam:

“A CAMEX é uma Câmara do Conselho de Governo com atribuição de formular políticas públicas, cujas ações e políticas ultrapassem as competências de um único Ministério (Lei nº 10.683/2003), relacionadas com o comércio exterior. 
(...) 
Competências da CAMEX  
Destacam-se: 
- Fixar as alíquotas do imposto de importação, atendidas as condições e os limites estabelecidos em lei; 
(...) 
Fonte: Câmara de Comércio Exterior - CAMEX

Se a CAMEX fixa as alíquotas de importação com o intuito de regular o mercado interno, amparada pela extrafiscalidade, este, o mercado interno, é regulado tributariamente de acordo com alguns princípios, como por exemplo, o da Essencialidade.

Desta forma, indiretamente, as alíquotas do Imposto de Importação fixadas pela CAMEX também irão variar de acordo com o princípio da Essencialidade.

“Quanto mais essencial for o produto, menor deve ser a carga tributária. O Estado, por sua vez, poderá impor carga mais alta sobre produtos dispensáveis ou supérfluos, que não são essenciais e que, uma vez não adquiridos, não refletirá nenhuma perda ao sujeito passivo de obrigação tributária e muito menos afetará o mínimo vital.”
Fonte: MELO, João Paulo Fanucchi de Almeida.Princípio da Capacidade Contributiva: a sua aplicação nos casos concretos. São Paulo: Quartier Latin, 2012.

Por exemplo, luxo é menos essencial que comida, e por isso tem alíquota mais elevada. Uma bolsa da Louis Vuitton, por exemplo, terá uma carga mais alta que um saco de feijão, assim vale para o mercado interno, o que indiretamente também atua nas alterações das alíquotas de importação, uma vez que estas devem ter como função a regulação do mercado interno, e assim promover uma competição justa para os produtos tanto nacionais como os nacionalizados.

Mas a essencialidade não pode ser vista apenas sob o aspecto do indivíduo, limitando-se apenas a necessidades fisiológicas do ser humano, seria restringi-la à apenas um ponto de vista. É necessário analisá-la em face da coletividade, e sua aplicabilidade em termos sociais.

Em uma cadeia de valores individuais, as necessidades fisiológicas, como a fome, fazem parte da base da pirâmide, porém em uma cadeia de valores coletivos as necessidades educacionais, como a cultura, não fariam parte da base da pirâmide coletiva?


“(...) o conceito daquilo que é essencial é mutável na dimensão do tempo e do espaço, em face da cultura, dos hábitos da sociedade, dos avanços tecnológicos. De modo que aquilo que hoje não é essencial à vida humana, poderá sê-lo amanhã.

Fonte: DANILEVICZ, Rosane Beatriz J. O Princípio da Essencialidade na Tributação. Direito Tributário em Questão: Revista da FESDT.

Se o princípio da essencialidade no mercado econômico norteia a tributação das mercadorias, e utiliza as alterações das alíquotas e a concessão de benefícios (como a isenção do imposto de importação) como ferramenta para operacionalização dessa doutrina, será que a nossa pergunta está sendo levada em consideração?

Quão essencial é a cultura no Brasil?



7) E COMO FUNCIONA EM OUTROS PAÍSES, COMO PORTUGAL?


Em Portugal, de acordo com as informações contidas no Decreto-Lei º 404/87, a norma prevê a isenção para importações de obras de arte que não se destinem a vendas, inclusive aquelas com cobertura cambial, vejam:


  Redação do Decreto Lei n.º 404/87 de 31 de dezembro.
                                                                                                Art. 13.º - 1 - Estão isentas do imposto: 

                  (...) 
  n) As importações de objetos de coleção e obras de arte de caráter cultural que não se destinem a vendas, efetuadas por museus, galerias de arte e estabelecimentos similares pertencentes ao Estado, pessoas coletivas de direito publico e outras entidades sem finalidade lucrativa, desde que tais objetos sejam importados a título gratuíto ou, se importados a título oneroso, forem adquiridos a particulares ou instituições congéneres das que beneficiam da isenção;

Com relação as importações com fins comerciais, ou seja, para vendas, há a seguinte previsão:


a) Portugal, assim como os Estados-membros da União Européia, podem aplicar sobre as importações de obras de arte, em vez da taxa normal, uma taxa reduzida igual a pelo menos 5%.

“6. O regime das importações de obras de arte e de antiguidades provenientes de países terceiros (Estados Unidos, Japão, Suíça ...). 
Além disso, a directiva prevê modalidades comuns de tributação das importações de obras de arte de colecção e de antiguidades na União Europeia. Os Estados-membros podem aplicar a essas importações, em vez da taxa normal, quer uma taxa reduzida igual a pelo menos 5%, quer uma base de tributação reduzida de tal forma que a taxa seja pelo menos igual a 5%. As exportações da União Europeia para países terceiros estão isentos de IVA.”


Fonte: 7 Directiva IVA.

b) Porém é necessário cumprir determinadas condições, caso contrário é aplicada a taxa normal de 17%.


“4.2 Por sua vez, o artigo 15º do Regime Especial de Tributação dos Bens em SegundaMão, Objectos de Arte, de Colecção e Antiguidades, define em que circunstâncias éaplicada a taxa reduzida. Assim, aquela taxa é aplicável: 
(...) 
- às importações dos objectos de arte;
(...) 
5. Do exposto, resulta que, relativamente aos sujeitos passivos revendedores considerados como tal, nos termos da alínea c) do artº 2º do Regime Especial, que adquiram os objectos de arte elencados no ponto A do anexo e nas condições acima referidas (artº 15º), o imposto suportado nessas aquisições é de 5%. 

7. Assim, a taxa a aplicar a transmissões de obras de arte referidas no ponto A do anexo* ao Decreto-Lei nº 199/96, será de 17% quando essas transmissões não preencham as condições do artº 15º do Regime Especial de Tributação dos Bens em Segunda Mão, Objectos de Arte, de Colecção e Antiguidades.
Fonte: Ofício-Circulado 7945, de 22/01/97 - Direcção de Serviços de IVA  


É possível notar que a importação, com fins comerciais, de obra de arte em Portugal também é passível de tributação, porém a incidência de tributos é bem menor que no Brasil.

A importação de obra de arte que não tenha finalidade comercial, fica isenta de tributação, o que se destaca neste ponto é que a isenção prevista vale também para os casos com pagamento ao exportador e adquiridos por particulares.


8) CONCLUSÃO

Se o principal objetivo do Estado é a busca pelo interesse público em prol da coletividade, no caso da importação, esse objetivo é resguardado através da proteção e regulação do mercado nacional sob a égide da extrafiscalidade. Então, qual a razão de tributar mercadorias as quais não se tem produção nacional, nem é possível que venha a ter, uma vez que cada obra tem a sua particularidade?

Pelo que parece, a finalidade do Imposto de Importação incidente sobre obras de arte ou mercadorias desta natureza foge à regra de regular e proteger o mercado interno. Assim, se aproxima muito mais de uma medida arrecadatória, que uma ação extrafiscal.

Vejam depoimento do Dr. Nicolas Galley, Diretor de Estudos da Universidade de Zurique, para o site swissinfo.ch:

"O Brasil é um mercado muito forte, mas ainda muito local. Isso porque a concentração de negócios ainda seria formada por um ciclo básico: Artistas brasileiros que vendem para galerias brasileiras, que vendem para colecionadores brasileiros."
Fonte: Dr. Nicolas Galley, Diretor de Estudos da Universidade de Zurique.


E como quebrar este ciclo?

Na minha visão, há de ser incentivada a importação de arte no Brasil. É necessário adotar alíquotas mais brandas ou expandir as isenções para importações com cobertura cambial e também para aquelas com ânimo de permanência.

Há de se ter este tipo de incentivo para que o ciclo se amplie e possamos ter acesso a outras artes, que não só as brasileiras, para que as pessoas e os próprios artistas, possam ser envolvidos pela história, cultura e educação que estas obras carregam em si.

É necessário dar esta oportunidade aos cidadãos, para que vejam além das fronteiras do seu país, e assim "inspirem a cultura" e "aspirem o conhecimento que a arte gera".

Sem estas atitudes, ou sem esta inclinação cultural, será difícil romper o ciclo, e ficamos fadados a olhar sempre apenas para nosso próprio reflexo.

Talvez a extrafiscalidade não seja a resposta para a nossa pergunta do início do post, talvez a resposta esteja em outra pergunta, que deixo aqui para vocês: 

Se a essencialidade, assim como a concessão de isenção para determinados produtos, são mutáveis ao longo do tempo e de acordo com a cultura do país, então, atualmente, o quão essencial é a cultura no Brasil?


Abraços e um Feliz Ano Novo! Que 2016 seja um ano repleto de realizações para todos!





terça-feira, 15 de dezembro de 2015

IMPORTAÇÃO DE OBRA DE ARTE - PARTE 1


A postagem de hoje não terá características procedimentais.

Não vai ser um passo a passo nem um roteiro de como importar uma obra de arte. 

Por que, Carol?

Porque o procedimento para importação de uma obra de arte para fins comerciais não é uma exceção à regra, ou seja, está submetido às regras normais de importação. E é por isso que eu vou abordar esse assunto hoje!

Eu não vou fazer uma passo a passo de como importar uma obra de arte, mas vou tentar esclarecer o que são as obras de arte, o que é o imposto de importação, qual a finalidade do imposto de importação sobre obras de arte, e discutir também outros pontos relevantes sobre este tema. 

O objetivo de hoje é entender qual o sentido do imposto de importação sobre mercadorias como obras de arte, que são bens raros, singulares, “sui generis”, e mesmo assim não fazem parte da exceção à regra geral de tributação de importação no Brasil.

Então vamos lá!


1) O QUE É UMA OBRA DE ARTE?

Encontrei a seguinte definição conceitual para OBRA DE ARTE:

“Pode ser definida como uma criação humana com objetivo simbólico, belo ou de representação de um conceito determinado. Como exemplos de obras de arte, podemos citar: esculturas, pinturas, poemas, arquitetura, filme, música, artefato decorativo, etc.”
Fonte: http://www.suapesquisa.com/o_que_e/obra_de_arte.htm.

E, para fins de importação, a classificação fiscal de algumas obras de arte, está abrangida no capítulo “97” da TEC, que diz o seguinte:


Capítulo 97 - Objetos de arte, de coleção e antiguidades.


A NESH (Nota Explicativa do Sistema Harmonizado) detalha um pouco mais sobre este capítulo, vejam:


Este Capítulo (97) compreende: 

A) As obras de determinadas artes: quadros, pinturas e desenhos, feitos inteiramente à mão, bem como as colagens e quadros decorativos semelhantes (posição 97.01); as gravuras, estampas e litografias, originais (posição 97.02); as obras originais da arte estatuária e de escultura (posição 97.03). 
B) Os selos postais, selos fiscais, marcas postais, envelopes de primeiro dia (F.D.C. - First Day Covers), inteiros postais e semelhantes, obliterados, ou não obliterados, exceto os artigos da posição 49.07 (posição 97.04). 
C) As coleções e espécimes para coleções, de interesse científico (zoologia, botânica, mineralogia, anatomia ou ainda um interesse histórico, arqueológico, paleontológico, etnográfico ou numismático (posição 97.05). 
D) Os objetos de antigüidade com mais de 100 anos de idade (posição 97.06). 
Estes artigos são suscetíveis de se incluírem em outras posições da Nomenclatura, se não preencherem certas condições decorrentes das Notas deste Capítulo ou do texto das posições 97.01 a 97.06. 
Os artigos incluídos nas posições 97.01 a 97.05 permanecem classificados na sua respectiva posição, qualquer que seja sua antigüidade.


Vejam que este capítulo 97 é muito mais restritivo que o conceito puro e simples de obra de arte. Mas, de qualquer maneira, todas as mercadorias que forem classificadas dentro do capítulo 97 podem ser chamadas de obras de arte, conforme o conceito do dicionário que vimos acima, porém o contrário não é verdadeiro, ou seja, nem toda obra de arte estará classificada dentro do capítulo 97.

Dá para seguir este raciocínio quando na própria NESH do capítulo 97 é explicado o seguinte:

“Estes artigos são suscetíveis de se incluírem em outras posições da Nomenclatura, se não preencherem certas condições decorrentes das Notas deste Capítulo ou do texto das posições 97.01 a 97.06.”

Por isso, sempre cabe, e é recomendável, uma análise detalhada da mercadoria para poder classificá-la corretamente.


2) O QUE É O IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO?

Encontrei a seguinte definição conceitual para IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO (II):

“É um imposto federal também conhecido como tarifa aduaneira. E somente a União tem competência para instituí-lo (Art.153, I, da Constituição Federal).”
Fonte: Manual de Direito Tributário, Eduardo Sabbag.
Sendo uma “tarifa alfandegária” irá incidir sobre a entrada definitiva de produtos estrangeiros no território nacional


Mas qual o valor do Imposto de Importação?

O II é aplicado através de alíquotas sobre o valor aduaneiro das mercadorias estrangeiras.

Estas alíquotas são definidas através de Atos Normativos do poder executivo. E cada mercadoria (classificação fiscal) tem a sua respectiva alíquota (ou valor específico) de II.

Então, fica assim, o II foi instituído por Lei Federal, porém a alteração das alíquotas que serão aplicadas na importação podem ser fixadas por Atos Normativos.


E qual a finalidade do Imposto de Importação?

A finalidade do Imposto de Importação é, para todas as mercadorias a ele submetidas, de regulamentação.

Por isso que as alíquotas do Imposto de Importação podem sofrer alterações, uma vez que têm a função de regular o mercado, e assim, a depender da situação sócio-econômica que passa o país, elas podem ser reduzidas ou majoradas. Esta função é conhecida como EXTRAFISCALIDADE, porque tem objetivos distintos daquele de simples arrecadação de tributos.

A função do imposto de importação é predominantemente extrafiscal, ou seja, visa muito mais disciplinar uma situação econômica e proteger a indústria nacional do que servir como instrumento de arrecadação (função fiscal dos impostos).”
Fonte: Chimenti, Ricardo Cunha. Direito tributário: com anotações sobre direito financeiro, direito orçamentário e lei de responsabilidade fiscal. Saraiva, 2011, 14 ed., página 187.

De acordo com alguns juristas da área de Direito Tributário, o imposto de importação em sua função extrafiscal, além de não almejar custear o Estado, tem o objetivo de proteger os interesses da economia nacional, de maneira protecionista, a fim de garantir uma adequada competitividade no mercado interno, e assegurar a geração de emprego e renda no Brasil.

 (…) não se trata apenas de reconhecer a existência de desigualdades, mas usa-se o Direito Tributário como instrumento de política social, atenuadora das grandes diferenças econômicas ocorrentes entre pessoas, grupos e regiões. (…) a Carta fundamental brasileira, ao contrário da alemã, estabelece as bases em que se assenta o Estado Democrático de Direito, fixando-lhes metas de justiça e igualdade social e, coerentemente, faz repercutir o princípio do Capítulo do Sistema Tributário. Pessoalidade, seletividade, extrafiscalidade e progressidade são princípios que espelham a busca da maior justiça tributária.
Fonte: Derzi, Misabel. Atualizadora da obra de BALEEIRO, Aliomar. Limitações constitucionais ao poder de tributar. 10. ed. Rio de Janeiro, Forense, 2000). 

Com base em todas estas informações podemos afirmar que a “função prática” do IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO é regular o mercado e garantir proteção para economia nacional, porém sua “função estratégica”, e macro, é a busca pela igualdade social, cultural e econômica, uma vez que visa fomentar condutas benéficas à sociedade, ou desestimular comportamentos contrários por considerá-los nocivos ao interesse público (primário).

Para ficar mais fácil o entendimento, criei a figura abaixo:





Poderíamos ler a figura da seguinte forma:

O maior objetivo do governo é o interesse público, sendo o imposto de importação apenas uma ferramenta para alcance deste. Ferramenta esta que visa a regulamentação e a proteção do mercado nacional, amparada pelo princípio da Extrafiscalidade.


3) QUAL A FINALIDADE DO IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO SOBRE OBRAS DE ARTE?

O título do post de hoje poderia ser: “A Importação e a Extrafiscalidade no Brasil”, mas eu decidi por ser mais objetiva, e através de um exemplo, como o caso das obras de arte, abordar esse assunto de maneira mais direta.

Se uma obra de arte é considerada uma mercadoria para fins de importação, e está inserida no rol de mercadorias da Tarifa Externa Comum (TEC), é verdade que estará sujeita a incidência do imposto de importação.

Vejamos um exemplo:

Exemplo Fictício


Mas digamos que o governo francês altere a Lei, e decida vender o quadro!

Uma Galeria de Arte brasileira sabendo desta oferta, decide comprá-lo. 

Um quadro como este, para ser importado, pode ser classificado na NCM 9701.10.00

Esta NCM 9701.10.00 tem alíquota de Imposto de Importação: 4%

Isso quer dizer que a alíquota de 4% será aplicada sobre o valor aduaneiro, que é composto do valor de 2,5 bilhões de dólares da “mercadoria” + Valor do Frete + Valor do Seguro, tudo isso convertido para nossa moeda na data do registro da DI. 


Carol, só para a gente ter ideia, qual seria esse valor?

Fazendo os cálculos:

Valor da Mercadoria:
USD 2,5 bilhões
Taxa do dia do registro da DI:
3,7921 – 10/12/2015
Valor Aduaneiro Estimado:
R$ 9,5 bilhões 
*Vou considerar apenas o valor da mercadoria para simplificar os cálculos

Alíquota do II:
4%



USD 2.500.000.000,00 * 3,7921 =

Valor Aduaneiro Estimado: R$ 9.500.000.000,00

R$ 9.500.000.000,00 x 4% = R$ 380.000.000,00

II a Recolher = R$ 380 milhões de Reais



O II a recolher caso a Galeria de Arte importasse a obra seria de R$ 380 milhões de Reais!

Ainda incidiria PIS, COFINS e ICMS! 

Isso tudo porque trata-se de importação com cobertura cambial, ou seja, com pagamento ao exportador, e finalidade comercial, venda no mercado interno.

Vejam:


II

4%

IPI

NT – Não Tributado

PIS

2,10% - Sobre o Valor Aduaneiro

COFINS

9,65% - Sobre o Valor Aduaneiro

ICMS

18% - No Estado de SP, por exemplo.




Fazendo as contas, a Galeria teria que recolher um total de tributos:


*Valores em Reais


Valor Total Estimado a recolher de tributos: R$ 3.910.061.022,70


Analisando a importação, é justo o pagamento destes valores?


Partindo do raciocínio:


Imposto de Importação -> Regular e Proteger Mercado Nacional -> 
Extrafiscalidade -> Interesse Público


O pagamento do II seria para que o mercado nacional fosse protegido e os produtos similares aqui fabricados tivessem espaço e chances de competir com este produto estrangeiro.

Mas existem produtos nacionais similares a este (Monalisa) no mercado interno??

Definitivamente não.

Como a obra de arte é, em sua maioria, um objeto único e original, com valor subjetivo, atrelado à época, autoria, composição, etc. É de se questionar:

- Há que se falar em concorrência com o mercado nacional de uma obra de arte estrangeira única? 

- Há que se falar em regulamentação da economia nacional uma vez que não existe possibilidade de produção nacional similar? 

Por isso a pergunta do tópico é tão pertinente: Qual a finalidade do Imposto de Importação incidente sobre obras de arte?



Com esta pergunta finalizo o post de hoje, que é a PARTE 1.

Na PARTE 2 darei sequência neste raciocínio, e irei trazer mais informações importantes para serem discutidas. Ao final farei minhas considerações.


Abraços e até breve!